O cão, a raposa e a pata

Relacionamentos. Já faz algum tempo que eu ensaio essa tag aqui para o blog, aliás, já houveram inúmeros textos que passaram batidos como “editorias” ou “justificativas” e que se encaixariam perfeitamente nela. Mas vamos fingir que esse é o primeiro, o “oficial“.

Sempre gostei de contos e fábulas (quando digo sempre, isso inclui “depois de adulta“).  Minha inspiração para a primeira-aventura-literária-sentimental foi Esopo e seus animais. Lembrou um pouco o filme O Cão e a Raposa, mas juro que só me veio em mente depois que terminei e fui procurar imagens  (maldito subconsciente), enfim,  o rumo é bem diferente.

O cão, a raposa e a pata

[tweetmeme source=”A Likeable Blog…” only_single=false]Era uma vez (porque histórias de verdade começam assim) um cão e uma raposa que se apaixonaram .

Cães e raposas são bem diferentes. O cachorro era bom e leal, a raposa era maquiavélica,  quase cruel. Ele tinha boa fé, ela era desconfiada. Ele era desengonçado, ela era elegante. Ele deveria caçá-la, ela deveria ter medo.

Funcionavam como casal mediante a mais básica lei do amor: “os opostos se atraem”, e continuaram como casal na segunda maior máxima do amoros iguais permanecem”. Digo isso porque depois de alguns meses, nem o melhor dos experts distinguiria o cão da raposa. Uma  já acreditava em algumas pessoas – o outro andava com mais classe, uma certa “pompa de segurança”, eles completaram-se da melhor forma possível (acreditem ou não, existem formas boas de mudar o que somos).

O problema demorou anos para começar. A raposa precisava do bosque, e o cão precisava da fazenda. A raposa sabia que o cão precisava da fazenda, e o cão sabia que a raposa não era a mesma longe do bosque.

Resolveram separar-se, até que ambos “suprissem” suas necessidades. Eles iriam se encontrar no meio do caminho sempre que possível. Ambos eram orgulhosos demais para levar em consideração supostos outros cães ou raposas. Sabiam que não aconteceria. Sabiam dos laços, e da força e de toda a baboseira sobre coisas que eram eternas.

E é aqui que entra o terceiro elemento da nossa história, a pata.

A raposa se embrenhou fundo no bosque, ela sabia exatamente onde queria chegar. O cão, agiu de forma oposta (coisa muito comum na relação de ambos) e pernambulou tranquilamente em direção a fazenda, passando pelo rio.

No rio estava a pata, sozinha. Veio de longe, quebrou asa e não pode voltar.

O cão achou graça na pata, falava engraçado e soava ingênuo. Sofria com a asa quebrada, sofria com o seu bando longe. Ele entendia, não passava um dia sem imaginar a raposa em algum lugar do bosque, e ao imaginar isso ficava ainda mais frustrado, pois não sabia caminhar no bosque.

A pata era o oposto da raposa, parecia com o cão no início. Andava estranho e acreditava nas coisas – porém, queria algo que o cão não precisava: alguém. Durante o “relacionamento” que surgira o cão supria a falta da raposa, e a pata alimentava esperanças.

A raposa ouviu falar do tal caso – não gostou. Porém, havia se embrenhado fundo na mata, e não era de seu feitio cobrar o que ela não podia dar. Resolveu ir até a fazenda.

O caso do cachorro com a pata não mudou em nada o sentimento dele pela raposa, aliás, por que mudaria? Assim que ela chegou ele a recepcionou. Apresentou-a para os outros animais, desfilou com ela pelo campo. E quando estavam sós, foi exatamente o que deveria ser.

A não ser pela pata, que continuou ali com a asa quebrada, grasnando e tentando chamar atenção a qualquer custo – o cão não tinha mais carências, ela tinha.

Mas não vão pensar que a pata foi enganada. Ela sabia o tempo todo da raposa, o cão falava o tempo todo da raposa, e esse era um pensamento que a assombrava dia após dia.

Ela fez o que pode, tentou conversar com a raposa, tentou falar mal da raposa para todos na fazenda, tentou chamar a atenção do cão, tentou falar mal do cão, tentou até fazer “inveja” no cão. Não obteve sucesso.

A raposa achou graça de um animal tão desengonçado querendo “disputar”  algo que já era dela há muito tempo. Afinal, lebres podem perder para tartarugas, mas raposas jamais perdem para patas.

O cão, em sua boa fé, começou a sentir pena da pata. A raposa, em sua suave maldade, gostou mais ainda, pois sabia que ela jamais seria digna de pena.

A pata ainda grasna. Fica catando migalhas do cachorro, e exibindo como se fossem troféu. Ela nunca entendeu que não existe triângulo, nem disputa, nem vitória e nem derrota – porque simplesmente  não tem como competir. Não adianta  usar pele de raposa, falar como raposa ou fingir que é a raposa. Algumas coisas nunca serão.

Não gosto de atitudes de pata, essa coisa de  “em nome do amor” que faz com que ela não se importe em ser uma segunda opção. Aliás, ninguém devia admitir ser opção, ser resto, ser sobra.

Ela está apaixonada”, vocês argumentam. Pois apaixonou-se tão rápido,  que desapaixone-se.

A raposa já andava longe haviam meses, a distância era enorme. E mesmo assim, o cachorro sequer pensou na pata quando a raposa chegou. O único sentimento que ela conseguiu despertar depois de inúmeras tentativas foi pena – um ser de penas, digno de pena. Oras, por favor! Será que patas não tem amor próprio, antes de ter amor para dar para os outros?

Bem, cachorros são cachorros, e amor é amor.

Não sei se histórias de cão e raposa tem “felizes para sempre” – mas por enquanto, eles estão muito bem juntos.

O cão  teve certeza que nada se compara a raposa, nunca mais passou um dia sem dizer que a  ama, melhor que isso, nunca mais questionou-se sobre. A raposa sai mais vezes do bosque, entendeu que o cão não tem como entrar lá, entendeu que estar perto é importante.

Por enquanto, não teremos ponto final…

Imagens: we ♥ it
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16 pensamentos sobre “O cão, a raposa e a pata

  1. Me chame de Pata, infelizmente. Porque na atualidade nada mais fecha melhor comigo que esse nome, e história. Adorei,estava precisando ler algo como isso.

  2. MEU MONSTRINHO PARECE UMA PATTAA! HAHAHAH

    Gostei demais desse espaço novo aqui do blog. Não sabia que você escrevia esse tipo de texto também.
    Meus parabéns, fiquei toda arrepiada!

  3. Que PATA (que apelido bom esse) burra. Ela ainda acha que pode conquistar o cão. Pobresica, mal sabe ela que o coração do cão é da raposa, e vice-versa (ou talvez não)

    Contribuição para o post que eu adorei e inclusive, conheço alguns cães e raposas como esses. Quanto as patas, bem, deixamos de lado…

  4. como sempre surpreendendo a todos né Andressa?
    adorei o texto. no momento estou me identificando com a raposa, hahaha.
    e gostei bastante desse novo espaço do blog, continue (:
    beijos.

  5. Hum, interessante essa história – Leia-se mais ou menos: vi essa raposa tão confiante e me vi há uns 10 meses atrás. Uma pata perturbadora, e… pois é. Engraçado como essa história é tão tão curriqueira, porque todo mundo tem uma história parecida senão igual. Muito bom post, Andressa. Eu não tinha lido ainda, mas gostei bastante. E a moral da história é pra qualquer um, a qualquer altura da vida, num momento de fraqueza e carência aonde todos podem virar patas da história. Excelente, gostei!

  6. Please, continue! Faz tempo que não vinha aqui – super falta de tempo para ver tudo o que eu queria – mas sempre que venho eu adoro seus textos! To tentando virar raposa ultimamente. Maybe I will..

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